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Trump, Groenlândia e o Dólar a R$ 5,37: Como a Geopolítica Mexe com o Real
Resumo:A abertura dos mercados nesta segunda-feira, 19 de janeiro de 2026, foi dominada por um choque geopolítico de proporções inesperadas. O dólar comercial frente ao real iniciou a sessão com uma leve alta, cotado a R$ 5,377 na venda, um movimento de +0,05% frente ao fechamento anterior.

Publicado em 19/01/2026
A abertura dos mercados nesta segunda-feira, 19 de janeiro de 2026, foi dominada por um choque geopolítico de proporções inesperadas. O dólar comercial frente ao real iniciou a sessão com uma leve alta, cotado a R$ 5,377 na venda, um movimento de +0,05% frente ao fechamento anterior. No entanto, este modesto número mascara a verdadeira tempestade que se forma no horizonte internacional e que tem o potencial de redefinir os fluxos de capital globais nas próximas semanas. O estopim foi a ameaça do Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de impor tarifas de 10% a 25% sobre produtos de oito países europeus — França, Alemanha, Reino Unido, Holanda, Dinamarca, Noruega, Suécia e Finlândia — como retaliação pelo apoio à soberania dinamarquesa sobre a Groenlândia. Este episódio, que soa como ficção geopolítica, rapidamente se transformou no principal motor da aversão ao risco global, pressionando o dólar em escala internacional enquanto derruba bolsas e fortalece ativos de refúgio. Para o Brasil, este cenário cria um cabo de guerra complexo: de um lado, um dólar globalmente pressionado por incertezas domésticas norte-americanas; de outro, um real ainda vulnerável a choques externos e à busca por liquidez em mercados emergentes. Este artigo analisa os vetores imediatos e estruturais que moldam o câmbio neste dia crítico.
O Choque Geopolítico: Tarifas, Retaliações e o “Prêmio de Risco Político” do Dólar
A decisão de Trump de escalar uma disputa territorial remota para o campo da guerra comercial com aliados históricos representa uma guinada significativa na política externa dos EUA. O anúncio de tarifas, com data de início prevista para 1º de fevereiro, foi imediatamente interpretado pelos mercados como um passo perigoso em direção ao isolacionismo econômico e à instrumentalização do comércio como arma de coerção. A reação foi rápida e contundente. A União Europeia classificou a medida como coerção econômica e iniciou discussões de emergência sobre retaliações, que podem incluir a ativação de tarifas suspensas sobre 93 bilhões de euros em importações dos EUA e restrições a serviços e investimentos. Analistas do Deutsche Bank alertaram para a possibilidade de um contragolpe financeiro massivo, lembrando que governos europeus detêm cerca de US$ 8 trilhões em ativos nos EUA, que poderiam ser parcialmente repatriados.
Este ambiente de tensão redefine o papel do dólar no cenário internacional. Conforme destacado por Chris Weston da Pepperstone, a moeda americana passou a carregar um “prêmio de risco político” elevado. Em outras palavras, a instabilidade gerada pela própria liderança dos EUA reduz o apetite de investidores internacionais por ativos denominados em dólar, pois a previsibilidade — uma das qualidades mais valorizadas — foi severamente abalada. Isto explica a queda imediata no Bloomberg Dollar Spot Index (-0,1%) e a fuga para ativos de refúgio tradicionais como o iene japonês, o franco suíço e, de forma espetacular, os metais preciosos. O ouro bateu novos recordes, com contratos futuros subindo 1,58% para US$ 4.667, evidenciando a profunda desconfiança instaurada nos mercados. Esta pressão de baixa no dólar global cria um vento contrário para a cotação frente ao real, limitando seu potencial de alta mesmo em um dia de aversão ao risco, que tradicionalmente beneficiaria a moeda americana.
Análise Técnica e Projeções Para o Dólar/Real No Curto Prazo
No front doméstico, o dólar opera em um território técnico de consolidação após uma forte desvalorização recente. A abertura em R$ 5,377 ocorre após uma semana de oscilação entre R$ 5,36 e R$ 5,40, e no acumulado do ano, a moeda americana ainda registra uma retração de 2,1% frente ao real. Este movimento de correção veio após a escalada histórica de 2025, que levou a cotação a atingir o pico recorde de R$ 6,26 em dezembro. A pergunta que paira no ar é se o cenário geopolítico atual será suficiente para romper a atual fase de lateralidade e iniciar uma nova onda de alta.
Os níveis-chave a serem observados são claros. A resistência imediata permanece na faixa de R$ 5,40 a R$ 5,45, um teto que contém os movimentos de alta há várias sessões. Um fechamento consistente acima de R$ 5,45 poderia sinalizar que a pressão geopolítica e a aversão ao risco estão, de fato, provocando uma fuga de capital emergente e fortalecendo o dólar localmente, apesar de sua fraqueza global. No lado oposto, o suporte crucial está na região de R$ 5,30 a R$ 5,35. Uma ruptura abaixo deste patamar, especialmente se acompanhada por uma calmaria no front internacional, poderia indicar a retomada da trajetória de apreciação do real no curto prazo, direcionando a cotação para a projeção de consenso dos economistas para 2026, em torno de R$ 5,80.
- Vento Contrário Global: A fraqueza do dólar no cenário internacional (DXY em queda) atua como um limitador para altas expressivas do par USD/BRL.
- Aversão ao Risco Local: Crises geopolíticas tendem a prejudicar moedas de mercados emergentes, como o real, o que pode conter a queda do dólar no Brasil.
- Agenda Doméstica: A entrevista do Ministro da Fazenda, Fernando Haddad, ao UOL News nesta manhã, é monitorada de perto por investidores por qualquer sinal sobre política fiscal e a visão do governo sobre o câmbio.
Impactos Em Cadeia: Commodities, Bolsas e a Inflação Brasileira
O terremoto geopolítico tem efeitos em cascata sobre outras classes de ativos, que indiretamente influenciam o fluxo de capitais e, consequentemente, o câmbio. As bolsas europeias operam em nítida baixa, refletindo o temor de uma guerra comercial que prejudicaria algumas das maiores economias do mundo. Em contraste, as bolsas asiáticas tiveram um desempenho menos negativo, auxiliadas por dados sólidos do PIB chinês, que cresceu 5% em 2025, atingindo a meta governamental. Esta resiliência asiática pode, a médio prazo, direcionar fluxos de investimento para a região, incluindo outros mercados emergentes.
No mercado de commodities, o petróleo devolve parte dos ganhos da semana anterior, com o Brent cedendo 0,72% para US$ 63,67. A commodity é sensível a choques geopolíticos, mas, neste caso, o temor de uma desaceleração econômica global decorrente de uma guerra comercial EUA-Europa parece estar pesando mais do que o prêmio de risco geopolítico imediato. Para o Brasil, exportador de commodities, um ambiente de crescimento global frágil e preços de commodities voláteis não é benéfico, podendo pressionar o saldo da balança comercial e, por extensão, oferecer menos suporte ao real.
O impacto mais direto e perene para o cidadão brasileiro, no entanto, continua sendo o da inflação. Como destacado pelo economista André Braz da FGV Ibre, um câmbio elevado e consolidado em patamar alto exerce uma pressão contínua e gradual sobre os preços. Itens como gasolina, pão e café tornam-se mais caros, e o custo para viagens internacionais dispara. Este “pass-through” inflacionário é um processo lento, mas inexorável, que corrói o poder de compra e complica a tarefa do Banco Central em atingir a meta de inflação. A projeção de que o dólar se estabilize em torno de R$ 5,80 em 2026 sugere que esta pressão de custos será uma realidade duradoura para a economia brasileira.
Conclusão: Um Dólar Entre Dois Fogos
O dia 19 de janeiro de 2026 expõe a complexa equação que determina a cotação do dólar no Brasil. De um lado, a moeda americana enfrenta uma pressão de venda no cenário global, desprestigiada por uma política externa imprevisível que introduz um inédito prêmio de risco político. Este fato, por si só, seria um forte argumento para uma valorização do real. No entanto, o real, como moeda de um mercado emergente, também é vítima da mesma aversão ao risco que penaliza o dólar global. Em tempos de turbulência geopolítica aguda, os investidores tendem a fugir de ativos percebidos como mais arriscados, buscando a liquidez do mercado americano ou a segurança absoluta do ouro.
O resultado, no curto prazo, é um equilíbrio de forças contraditórias que mantém o dólar/real em uma faixa de negociação apertada, como visto na abertura. A trajetória futura dependerá de qual vetor se mostrará mais forte: a desconfiança crônica na liderança dos EUA ou o receio cíclico em relação aos emergentes. Enquanto o mundo observa a reação europeia e a evolução do embate pela Groenlândia, o mercado brasileiro também estará atento aos sinais domésticos de disciplina fiscal e credibilidade econômica, que são os únicos antídotos verdadeiros contra a volatilidade importada. Em um mundo onde a geopolítica volta a comandar a economia, a lição para o Brasil é clara: a fortalecimento dos fundamentos internos nunca foi tão crucial para navegar as ondas de choque que, vindas de Washington ou de Bruxelas, inevitavelmente chegam às praias do mercado de câmbio local.

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